O Corte de Cabelo
A perspectiva de uma ida ao "Ramalho" era o suficiente para causar pânico entre as hostes daqueles que tinham um apreço muito especial pela região capilar da parte superior da cabeça.
As regras eram bastante simples: o cabelo não podia tocar nem nas orelhas nem no colarinho da camisa. Tudo o resto dependia dos factores pessoais de "auto-estima".
Uns de nós não se estavam para incomodar, e qualquer coisa entre a máquina 1 e 5 servia. Outros, eram mais "selectivos" e a escolha recaía entre o Ramalho e o Sabino (o homem que tinha uma unha de "10"cm): a unhaca. Invariávelmente, o corte saía o mesmo e passava despercebido dentro do Colégio, mas quando saíamos para o exterior a coisa era diferente, a malta civil julgava que tínhamos sido raptados por extraterrestres e devolvidos a Terra por mau funcionamento. Adicionalmente, o factor "atracção feminina" caía para virtualmente zero, independentemente do número de flik-flaks na classe especial, das medalhas recebidas ou das botas de montar da escolta,... pura e simplesmente não pegava nas festas do Liceu Francês ou da Escola Alemã.
Havia ainda a terceira categoria: a categoria "Calheiros". Os cinco dias da semana colegial revolviam á volta da expectativa de conseguir sair para fim-de-semana com o corte de cabelo o mais perto possível da normalidade civil. Eram verdadeiros sofredores. Se a recompensa de "sacar" umas amigas ao fim de semana era imensa, já o stress da perspectiva de ser apanhado "de cabelo comprido" não era menos grande. O 68-Calheiros, epitomisava este grupo. As saídas ao sábado eram preparadas com o rigor e precisão militar digno do "Grupo de Operações Especiais": o cabelo era molhado á volta das orelhas e uma vez o barrete posto não saía mais, um de nós era nomeado para distrair o Cmdt de Companhia na hora certa e por aí fora. O momento crucial eram os 10 segundos que levavam a sair da formatura até a vitrina dos cartões onde o Cap. Caetano permanecia de vigia qual ave de rapina. Com a proximidade de um Chá Dançante, a adrenalina aumentava (para a "ave" e para a "presa") e o prospecto de uma ida antecipada ao Ramalho para uma carecada era algo bastante doloroso.
Ainda hoje, o estigma da ida ao "Ramalho" existe em todos nós. Uns, talvez já com menos cabelo que outros por força da idade, não se interessam onde ou quem lhes corta o cabelo, outros ainda são capazes de andar 50 km para "aparar" o cabelo no barbeiro certo. Quanto ao magnetismo feminino: as medalhas, os flik-flaks e as botas de montar continuam a não contar!!
Contaram-me que na altura da tradicional foto nas escadas da Enferma houve alguém (...da categoria Calheiros) que não quis pôr o barrete para não estragar o penteado. Abençoado !!


