A Falquite

AAACM Segundo o glossário de termos colegiais da AAACM (ed. 2005-06) o termo "estar na falca" ou sofrer de "falquite" relaciona-se com o efeito de o colegial se fazer passar por doente. Confesso que às vezes, bem que dava jeito, em particular na altura de treinos para o 3 de Março com as infindáveis voltas ao Estádio da Luz (maldito 3 anel).
Mas não se podia estar sempre na "falca", havia que gerir a frequência das dispensas de formaturas uma vez adquirido o estatuto de "inválido". A imagem que tenho dos dispensados, é a de se arrastarem no final das formaturas, em contraste com a marcha do resto da companhia em particular quando nos dirigíamos de ou para o refeitório. O Ten Cor Rio de Carvalho, na altura Comdt Corpo de Alunos, exclamou uma vez no seu habitual tom sarcástico:
- Ahh,..."Les Invalides", olha para eles são sempre os mesmos!
Recordando agora e com um pouco mais de perspectiva penso que havia 3 grupos distintos nos dispensados que personificavam o "cocó", o "ranheta" e o "facada".

Os cocós: Não se conseguia perceber o porquê da dispensa das formaturas para os "cocós". Normalmente eram os da dieta. Ou porque se poderiam borrar nas calças enquanto marchavam ou então tinham alguma complicação gastro-intestinal que resultava no impedimento de bater com os calcanhares e manter o braço a altura do ombro.

Os ranhetas: O ranheta era o "falquista" por excelência, aliás penso que o "pé de atleta" até foi inventado pelos falquistas. Era vê-los a arrastarem-se com o seu ar de "abandonado" mais as suas alpercatas outrora brancas e agora algo castanhas e sebosas. Para aumentar o grau de compaixão era costume trazerem a mão ao peito suspensa por um misto de trapo-ligadura bastante encardida. Estas próteses falquistas eram imediatamente atiradas para um canto uma vez fora do campo de visão dos graduados e oficiais e,... ao primeiro sinal de um jogo de futebol no geral da companhia. A razão por que um falquista nunca ficava doente em casa era porque não há quem nos conheça tão bem como os nossos pais, como tal estes nunca iam na cantiga do "estou doente" e ao domingo lá estavamos (doentes ou não) à entrada, na porta de armas, para mais uma semana de aventuras.

Os facadas: Provavelmente eram os únicos que tinham direito a estar dispensados e era bem óbvio: um braço ou uma perna em gesso. Isto quase sempre em virtude da aula de ginástica ou das traquinices diárias: o flic-flac que saiu mal, ou porque caíram de uma árvore, ou de um telhado (?) etc. Para estes, estar nos dispensados era mais doloroso que a própria fractura ou rotura de ligamentos, pois geralmente eram putos hiperactivos.

Com o passar dos anos, todos nós passamos pela fase do cocó, do ranheta e do facada. Mas desta vez por ordem inversa, andamos mais a dietas em vez dos flic flacs e trepar às árvores. Quanto ao estigma dos ranhetas e a sua falquite aguda, confesso que ainda hoje a tenho especialmente quando não me apetece ajudar em casa!!