75-Pica
O 75-Monteiro era mais conhecido pelo "Pica". O Pica era um rapaz bastante curioso, pois gozava de uma sapiência incrível acerca de artes marciais, este conhecimento da cultura oriental era sempre acompanhado por relatos das suas mais variadas façanhas aos fins-de-semana usando matracas e outras armas cujo nome acabava em "..jitsú" ou "...manchú".

Esta paixão porém, era inversamente proporcional à arte do Marialva e como tal, para o Pica, as aulas de equitação eram um verdadeiro inferno. Durante todo o 5'ano assistimos à mesma rotina de pânico semanal do 75 e que hoje recordamos com grande saudade:

A angústia começava na noite anterior, em que o 75 tinha que arranjar umas botas de montar emprestadas, por esta altura já dava para notar o seu ar miserável qual condenado à morte à procura de uma corda para se enforcar.

A aula de equitação era sempre à 4a feira na 2a hora e depois de uma aula de Matemática, cujo rendimento era práticamente nulo, especialmente para aqueles cujo à vontade com os solípedes era algo periclitante. Era aí então, que o Pica começava o seu processo mental de auto-destruição, agoirando em voz lamentosa - "vamos todos morrer!!" e "é hoje que vou ficar inválido!!". Obviamente, que ninguém queria estar ao lado do Pica nestes momentos, para não se deixar levar por vibrações negativas a não ser o 190-Garnacho que por vezes comungava do mesmo espírito de pânico.

Já na sala que dá entrada para o picadeiro, a que ele chamava a ante câmara da tortura, o Pica ficava branco que nem cal e mal articulava uma palavra. Normalmente, e num acto de camaradagem misturado com algumas ameaças aos mais franzinos da turma, o Pica escolhia a sua montada, isto é, uma das "cadeirinhas". Até que um belo dia o Dores topou e disse: "Tu! Hoje montas o último da fila (o Patacho)."

Ora montar o Patacho, era sinónimo de andar a comer serradura durante os 50 minutos da aula, e o 75 lá seguiu resignado ao seu eminente destino de cavaleiro voador. Penso que nesse dia o Pica conseguiu o impossível, pois com os nervos esqueceu-se de apertar a cilha correctamente e foi ao chão ainda o Patacho estava parado, a partir daí em diante assistimos a uma verdadeira aula de karaté,... dada pelo Patacho!

Para mim, a equitação teve sempre um mistério: é que em cima de um cavalo éramos todos mais iguais, ou seja, os mais franzinos pareciam mais fortes e desenrascados e os mais malandrões passava-lhes a malandrice e, durante aqueles 50 minutos pelo menos, já não eram tão valentões como faziam querer parecer.