Para mim, é talvez o melhor discurso Colegial dos últimos tempos. As palavras do Presidente da AAACM para os actuais alunos (...e porque não ex-alunos?):
Embora não apareça incluída no Programa das Cerimónias Oficiais relacionadas com o "3 de Março", já há alguns anos que se criou a tradição de o Presidente da AAACM vos dirigir algumas palavras no princípio desta manhã. Porquê?
Porque faz a ligação do passado com o presente e o futuro. Porque representa a ligação entre toda a família colegial neste dia em que comemoramos a nossa origem, e estando ligado à origem é o Presidente da AAACM o primeiro a falar. Surge quase a seguir à alvorada como um sinal de recomeço.
Em 2006, nesta mesma ocasião, dediquei as minhas palavras aos Ratas e aos Graduados.
Este ano, irei falar das Tradições. Porque que razão, neste Colégio, têm tanta importância as Tradições? É algo que qualquer aluno ouve e vive desde o dia em que aqui entra.
São as Tradições que dominam a vida colegial de um modo cego e incompreensível, ou existem nelas objectivos que a todos interessam?
Numa Casa com uma longa História, como numa Nação ou numa grande Família, a memória e a sua preservação são algo de muito importante para que todos sintam um sentido de pertença colectiva, defendam e se reconheçam em valores e objectivos comuns.
Assim, as Tradições constituem uma fôrma onde tudo se vai encaixando, cada uma com o seu objectivo, passando de geração em geração e permitindo uma longa linha de entendimento, compreensão e fraternidade entre todos os que aqui estudam ou aqui estudaram.
Existem três objectivos principais a atingir com a importância das Tradições, o Espírito de Corpo dentro do Batalhão Colegial, a criação de uma infra - estrutura consciente, emocional e de valores comuns, que permite a existência e a perenidade da Família Colegial e a Defesa dos Valores Pátrios.
Para este último caso, lembro apenas que todas as cerimónias colegiais começam ou terminam com o Hino Nacional e a repetição anual das comemorações do "1º de Dezembro". Somos filhos de uma Nação que, orgulhosamente, o quer continuar a ser. Num mundo em grande mudança, no mundo da globalização em que alguns se convenceram que tudo vai ser igual, todos os dias morrem em desespero, homens, mulheres e crianças que lutam pelo direito de ter uma Pátria.
Nós, Portugal, somos uma das mais antigas Nações da Europa e os nossos antepassados lutaram com êxito por essa Pátria e, aqui, neste Colégio, nunca deixámos que tal seja esquecido e faz parte da nossa educação diária, numa época em que muitos andam perdidos e confusos.
Existe todo um outro conjunto de tradições voltadas para a criação do espírito de corpo e de irmandade dentro do Batalhão Colegial, cujos aspectos mais visíveis são, na Cerimónia oficial da abertura das aulas, o abraço do Comandante de Batalhão ao Batalhãozinho e a entrega por este da Espada ao novo Comandante, significando, não só a renovação anual e a linha de continuidade, mas também, o reconhecimento por todos da função dos Graduados e da enorme responsabilidade que tal significa, personificada na figura daquele que representa todo o Batalhão Colegial.
Mas, como aparecem exteriorizados o Espírito e a Família Colegial entre todas as gerações e com se relembra a Origem que a todos une?
Isto tem o seu aspecto mais visível no tratamento por TU entre todos os antigos alunos.
Por que razão? Que significado envolve esta primeira grande tradição? Quando existe e quando se rompe tal tratamento?
O tratamento por TU só é possível entre aqueles que comungam dos mesmos Valores individuais e colectivos, neles acreditam e os praticam. Por isso a Camaradagem, a Solidariedade, o Espírito de entre - ajuda, o apoio aos mais fracos, a compreensão da importância que tem o interesse colectivo sobre o individual, o amor à Verdade, a Coragem Moral, a Independência de Pensamento e a recusa da Canalhice são o cimento que permite esse tratamento tranquilo e confiante por TU. Quando há uma quebra por alguém destes valores comportamentais, o tratamento por TU já não é mais possível, porque esse alguém se auto excluiu, porque essa confiança tranquila, mesmo em quem não se conhece, foi despedaçada.
Por tudo isto o tratamento por TU é mais que uma tradição a preservar, é um acto de reconhecimento mútuo e de orgulho nos valores e nos comportamentos em que acreditamos.
A outra grande tradição é o retorno anual à essência desta Escola com a comemoração pública e com uma alegria sempre renovada do "3 de Março", origem que a todos une. Não só em Lisboa com as grandes cerimónias que neste fim de semana repetimos, mas um pouco por todo o mundo este Dia é comemorado em conjunto, desde que existam, no mínimo, dois antigos alunos. E quando digo em todo o mundo, é mesmo em todo o mundo, é uma verdade que os mais velhos conhecem bem.
Sobre este Colégio alguém, que aqui não estudou, escreveu recentemente "Nos tempos de incerteza e relativismo em que vivemos, as sociedades precisam de Instituições com estabilidade e protagonismo, que constituam âncoras dos valores essenciais e sirvam de referência para outras estruturas mais débeis e mais voláteis" e mais adiante "A identidade é indissociável da tradição e da memória, partilhadas com a abertura ao diferente e à mudança, como algo que combina estavelmente permanência e evolução, sendo um elemento fundamental de uma cidadania responsável".
Por isso aqui estamos novamente, por que somos úteis à Nação e não estamos perdidos não deixamos que nos destruam ou que nos abalem, por isso as Tradições são essenciais numa Comunidade que ao longo de 204 anos deu a este País alguns dos seus filhos mais ilustres e muitos que ao serviço da Pátria e da Comunidade Nacional dedicaram toda a sua vida.
Lisboa, 3 de Março de 2007
O Presidente da AAACM
José Eduardo Garcia Leandro
Ten-General
(94/1950)